Libertar o potencial da Alimentação Animal

Apesar de todo o fluxo de informação e conhecimento que temos à nossa disposição, é inegável que vivemos numa era de mitos e inverdades, uma era de desinformação alimentar. No entanto, quando temos cerca de 30% dos jovens com obesidade e a diabetes e as doenças cardiovasculares são das principais causas de morte, é urgente refletir e atuar. Existe a perceção de que o sal, o açúcar e a gordura são os grandes “culpados”, e os Governos tentam mitigar o problema pela via fiscal, com imposição de taxas aos produtos ou recorrendo a estratégias de maior pedagogia, pela promoção de uma alimentação e estilos de vida mais saudáveis.

Certo é que necessitamos de uma educação alimentar que promova a saúde e a diversidade, com base na ciência, sem fundamentalismos, reconhecendo, ao mesmo tempo, o enorme esfoço que as empresas agroalimentares têm vindo a fazer para dar resposta ás preocupações e necessidades dos consumidores e das autoridades. Num outro patamar, temos as questões relativas à resistência antimicrobiana, de segurança dos alimentos, ou as relativas ao ambiente, alterações climáticas, e ao bem-estar animal. Por outro lado temos já assumida uma cultura de gestão mais eficiente dos recursos (terra, ar, água), de sustentabilidade. Estão aí bem presentes os Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas para o horizonte 2030 ou o Acordo de Paris.                 

No entanto, nas suas contradições e incoerências, vivemos numa Sociedade que não aceita o risco alimentar, apesar da incerteza, instabilidade e imprevisibilidade na economia e no nosso quotidiano.  

Seja como for, vivemos numa conjuntura em que a Alimentação é notícia, uma tema de grande importância e que assume grande visibilidade junto da opinião pública, o que representa, para além da responsabilidade, um enorme desafio e oportunidade para o setor da alimentação animal.

Ao nível da qualidade e na produção de alimentos mais saudáveis, quer para os animais, quer para as produções de leite, carne e ovos, indispensáveis a dietas mais equilibradas e diversificadas, dirigidas aos diferentes tipos de consumidores; ao nível da competitividade e eficiência das explorações pecuárias, quer pelo recurso a alimentação de precisão, quer potenciadora de melhores condições de maneio, que promovam a saúde e bem-estar animal, a valorização dos recursos naturais e dos coprodutos, pela economia circular, tornando a pecuária e toda a Fileira, ecologicamente mais eficiente.         

Temos aqui um outro papel e uma nova dinâmica da alimentação animal que vai muito para além do tradicional efeito dos índices de conversão, que permitiram ao longo das últimas décadas, “democratizar” a alimentação, tornando-a mais inclusiva e ao alcance de todos. Com um efeito direto na saúde e bem-estar dos animais e no meio ambiente e, indirecto, na qualidade das dietas alimentares para a alimentação humana.

Infelizmente, a situação na União Europeia tende a fragilizar-se em dossiers da maior relevância para a nossa Indústria e para a Fileira Agroalimentar, como a biotecnologia e os OGM, o glifosato, alimentos medicamentosos, zinco, cobre, resíduos de pesticidas…todos aqueles em que, pese embora as evidências científicas e os pareceres das Agências que foram criadas para ajudarem nos processos de decisão (caso da EFSA), não raras vezes são ultrapassados por razões políticas, pela emoção ou pelo ruído, por alguma ausência de racionalidade.     

Para que esta nova função da Alimentação Animal seja plenamente realizada é necessário comunicar, preparar a Indústria para esses desafios e libertar todo o seu potencial, numa atitude que a todos respeita e que passa pela definição e implementação de políticas públicas, holísticas e coerentes, seja na revisão da PAC pós-2020, ou da Diretiva RED, com impacto nos biocombustíveis e na disponibilidade de proteína, ambientais, de alimentação, no plano interno da União Europeia e na componente nacional (Horizonte 2020 ou PDR 2020), seja nos mercados externos, no quadro dos acordos comerciais que estão a ser negociados por Bruxelas.

Sem esquecer a componente de investigação, experimentação, inovação e desenvolvimento – que o PEI e a recente Conferência sobre Inovação na Agricultura realizada em Portugal, a AIS 2017 irão certamente alavancar -, essencial para que continuemos a ser competitivos, sem o qual nunca seremos, verdadeiramente, sustentáveis.      

Nesta perspectiva, recentrar e reinventar a alimentação animal deve ser o grande desafio coletivo para os próximos anos. Um compromisso e uma cumplicidade, que todos juntos, Sectores, Universidades e Administração Pública, temos de abraçar. Este é um efeito mobilizador que apenas depende de nós!   

Jaime Piçarra

Secretário-Geral da IACA

 

A força da comunicação

Há pouco menos de 30 anos, num tempo bem menos volátil e o fax era, provavelmente, a última das tecnologias, longe da Internet, das redes socias e dos “smartphones”, os meus antecessores davam início a um sonho: a IACA deveria ter um meio de comunicação, um “porta-voz”, uma forma de amplificar e projectar as mensagens e os pontos de vista da Indústria de Alimentos Compostos para Animais.

Já na altura se editava a Informação Semanal, a informação e comunicação com os associados estava assegurada mas havia que comunicar “para fora”, para a opinião pública, parceiros, a montante e jusante da nossa Indústria e, sobretudo, com a Administração Pública e decisores políticos. Tiveram deste modo o engenho e arte de antecipar a importância e a força da comunicação, percebendo, até porque a entrada na então Comunidade Económica Europeia e as transformações da Sociedade assim o obrigavam, que uma Associação como a nossa tinha de assumir um maior papel na divulgação da sua actividade e dos seus interesses, corporizando, através de uma publicação, a sua Missão de formar e informar.

E assim nasceu a “Alimentação Animal”, um projecto, pioneiro e inovador, que, com o apoio dos Associados, dos anunciantes, muitos desde a primeira hora, dos nossos parceiros - organizações associativas, empresas e Instituições – dos sucessivos dirigentes da IACA e dos colaboradores incansáveis e de grande qualidade que serviram e continuam a servir esta Instituição, celebra hoje a sua edição número 100.

Uma Revista que, a avaliar pelos testemunhos que publicamos, representa uma referência, soube adaptar-se aos novos tempos, se foi transformando e transformou, deu a conhecer os problemas e estrangulamentos, as vitórias, as tristezas, as posições e soluções para os diferentes dossiers, uma informação plural, livre e aberta, incluindo aqueles que não pensam como nós e que também são importantes para influenciar os nossos caminhos e estratégias. Sobretudo, a “AA” tem sabido reproduzir, com fidelidade, a história da Indústria da Alimentação Animal em Portugal e o que perspectivamos no futuro, perante os desafios: da Sociedade e da Comunicação.      

Desde então, tudo mudou e muitas transformações eram impensáveis na altura, algumas delas aceleradas, quer pelas crises (alimentares, sanitárias, de mercado), quer pela globalização e pelo mundo digital, pelas redes sociais. Vivemos hoje um tempo de particular instabilidade e imprevisibilidade, muitas vezes sem referências ou memórias do passado, de grande interacção de comunicação e ao mesmo tempo de isolamento. Onde tudo é escrutinado, todos somos “opinion makers” ou comentadores de serviço, os media promovem estes espaços públicos de opinião, em nome da liberdade e da sociedade civil. Não raras vezes o ruído e a contestação pública, ignorando-se a ciência, também ela muitas vezes marcada pelas diferenças de opiniões, são os motores das alterações legislativas, sem que os impactos para os Setores ou a exequibilidade das medidas tenham sido equacionados. Recordemos o que o Presidente Juncker dizia no início do seu Mandato: que as decisões com base no conhecimento científico eram importantes, mas que os interesses dos cidadãos não deveriam ser ignorados. Muitas vezes o politicamente correcto, só porque as sondagens de opinião assim o ditavam, promoveram (promovem?) quadros legislativos impossíveis de praticar, com a consequente perda de competitividade porque o mercado as não remunera e os políticos não assumem a coragem de exigir essas mesmas imposições às importações de Países Terceiros. É certo que temas como o bem-estar animal, a segurança alimentar, a protecção ambiental e as alterações climáticas, a gestão eficiente de recursos, a redução dos antibióticos e a sustentabilidade, são ganhos civilizacionais e preocupações aceites pelos consumidores que tudo querem mas não estão disponíveis para pagar mais, e desconhecem que os produtos importados não têm exactamente as mesmas regras (e custos) dos congéneres europeus. Esta é a primeira grande incoerência de Bruxelas e que tem de ser rapidamente alterada, numa altura em que se incentivam os acordos comercias. Outras contradições prendem-se com interesses e satisfações dos consumidores, assentes na moda, na opinião publicada ou na má-comunicação e os exemplos multiplicam-se seja no leite, na carne, nos ovos, em que apesar das evidências e estudos, estes produtos continuam a ter uma imagem relativamente negativa. A obesidade e a diabetes são, de facto, problemas sérios e os culpados, desde logo, são os alimentos, a gordura, o sal, o açúcar, sem se ter em linha de conta que não existem bons ou maus alimentos, mas dietas e estilos de vida que podem ser profundamente errados.

Porque vivemos de percepções, de opiniões voláteis, temos hoje uma excelente oportunidade de mudar o actual estado de coisas, mostrando como fazemos a alimentação animal, as preocupações que temos com os consumidores, abrindo as portas das empresas, a importância dos produtos animais na saúde humana, os compromissos que assumimos em diferentes áreas, com particular destaque no bem-estar animal, na segurança alimentar, na protecção do ambiente. Mostrar que queremos ser sustentáveis mas que essa sustentabilidade passa pela componente económica, ambiental e social. Que podem confiar e acreditar em nós. Que somos uma Indústria responsável e que na fileira da alimentação animal todos partilhamos os mesmos valores e objetivos.

Numa altura em que importa mais ser proactivo e menos reativo, mais do que informar, nunca foi tão necessário comunicar, trabalhar em conjunto, com transparência e verdade. Afinal, tinham razão os que lançaram há 28 anos a Revista “Alimentação Animal”, tão actual e presente nos seus objectivos. Talvez mais do que nunca!   

Cristina de Sousa

Presidente da IACA

 

Sustentabilidade e equilíbrio

O mundo actual enfrenta uma série de desafios que implica alterações nos comportamentos. Quando falamos de sustentabilidade temos que ter em conta o sentido do termo. E se existem conceitos aceites por todos, que têm a ver com a relação do homem com o meio ambiente, também posso afirmar que sustentabilidade significa capacidade de repor aquilo que consumimos. É nesse sentido que quero direccionar estas breves linhas sobre um tema, que tem muito para abordar, com diferentes conotações, e que é da maior actualidade. Sabemos que o défice de recursos naturais é o maior desafio que se coloca à Humanidade.

Existem estudos que salientam que o consumo de recursos naturais é, hoje, superior à capacidade de produzir através de métodos naturais do planeta Terra, os alimentos de que necessitamos. Esses mesmos estudos referem que cerca de 80% do consumo é da responsabilidade de 20% da população mundial o que pode significar elevados desequilíbrios entre continentes, países e povos.

É, por isso, importante a busca de equilíbrios sociais, económicos e políticos.

Sociais, procurando a inclusão dos povos mais pobres, equilibrando os rendimentos per capita, possibilitando acesso à alimentação, à saúde e à formação.

Económicos, procurando produzir de acordo com as capacidades do planeta e recorrendo à tecnologia e ao conhecimento para encontrar formas de alimentar a população mundial diminuindo o desgaste do planeta. Neste ponto, é importantíssimo assumir que a tecnologia deve ser amiga do ambiente proporcionando métodos capazes de aumentar a produtividade do solo sem o esgotar. É importante que essas tecnologias e métodos sejam acompanhados de valores éticos e de responsabilidade, que tranquilizem a sociedade, sendo igualmente importante criar protocolos de responsabilidade que sejam motores de confiança. É, neste caso que, na minha perspectiva, as políticas têm que ser trabalhadas a nível global.

O mundo actual necessita de consensos no que se refere ao uso das tecnologias e métodos capazes de melhorarem a produtividade dos animais, sementes e outros recursos naturais. O mundo actual necessita, também, de definir políticas capazes de assumir que existem alterações demográficas e climatéricas que obrigam a alterar o “status quo”.

É necessária, então, uma abertura mental para as mudanças que têm que ser feitas.

Deste modo usar os recursos e capacidades do planeta, com ética e valores que salvaguardem o homem e o ambiente, é a chave para o equilíbrio necessário.

Como assumimos com os eventos de janeiro, em Lisboa, a assinatura do Memorando de Entendimento sobre a soja responsável, no âmbito do Projeto Soja Plus, no Brasil, ou o Workshop sobre Sustentabilidade, realizado em conjunto com a FEFAC, é este o caminho que a nossa Indústria está a percorrer, de uma forma responsável, como se demonstra nesta edição, que antedece o número 100 da Revista “Alimentação Animal”, e é por aí que deve caminhar.

Responsabilidade e Sustentabilidade como um desafio da Sociedade, conscientemente assumido e irreversível. Não uma moda passageira, porque as gerações vindouras não nos iriam perdoar.

António Santana

Diretor da IACA

 

 


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