A força da comunicação

Há pouco menos de 30 anos, num tempo bem menos volátil e o fax era, provavelmente, a última das tecnologias, longe da Internet, das redes socias e dos “smartphones”, os meus antecessores davam início a um sonho: a IACA deveria ter um meio de comunicação, um “porta-voz”, uma forma de amplificar e projectar as mensagens e os pontos de vista da Indústria de Alimentos Compostos para Animais.

Já na altura se editava a Informação Semanal, a informação e comunicação com os associados estava assegurada mas havia que comunicar “para fora”, para a opinião pública, parceiros, a montante e jusante da nossa Indústria e, sobretudo, com a Administração Pública e decisores políticos. Tiveram deste modo o engenho e arte de antecipar a importância e a força da comunicação, percebendo, até porque a entrada na então Comunidade Económica Europeia e as transformações da Sociedade assim o obrigavam, que uma Associação como a nossa tinha de assumir um maior papel na divulgação da sua actividade e dos seus interesses, corporizando, através de uma publicação, a sua Missão de formar e informar.

E assim nasceu a “Alimentação Animal”, um projecto, pioneiro e inovador, que, com o apoio dos Associados, dos anunciantes, muitos desde a primeira hora, dos nossos parceiros - organizações associativas, empresas e Instituições – dos sucessivos dirigentes da IACA e dos colaboradores incansáveis e de grande qualidade que serviram e continuam a servir esta Instituição, celebra hoje a sua edição número 100.

Uma Revista que, a avaliar pelos testemunhos que publicamos, representa uma referência, soube adaptar-se aos novos tempos, se foi transformando e transformou, deu a conhecer os problemas e estrangulamentos, as vitórias, as tristezas, as posições e soluções para os diferentes dossiers, uma informação plural, livre e aberta, incluindo aqueles que não pensam como nós e que também são importantes para influenciar os nossos caminhos e estratégias. Sobretudo, a “AA” tem sabido reproduzir, com fidelidade, a história da Indústria da Alimentação Animal em Portugal e o que perspectivamos no futuro, perante os desafios: da Sociedade e da Comunicação.      

Desde então, tudo mudou e muitas transformações eram impensáveis na altura, algumas delas aceleradas, quer pelas crises (alimentares, sanitárias, de mercado), quer pela globalização e pelo mundo digital, pelas redes sociais. Vivemos hoje um tempo de particular instabilidade e imprevisibilidade, muitas vezes sem referências ou memórias do passado, de grande interacção de comunicação e ao mesmo tempo de isolamento. Onde tudo é escrutinado, todos somos “opinion makers” ou comentadores de serviço, os media promovem estes espaços públicos de opinião, em nome da liberdade e da sociedade civil. Não raras vezes o ruído e a contestação pública, ignorando-se a ciência, também ela muitas vezes marcada pelas diferenças de opiniões, são os motores das alterações legislativas, sem que os impactos para os Setores ou a exequibilidade das medidas tenham sido equacionados. Recordemos o que o Presidente Juncker dizia no início do seu Mandato: que as decisões com base no conhecimento científico eram importantes, mas que os interesses dos cidadãos não deveriam ser ignorados. Muitas vezes o politicamente correcto, só porque as sondagens de opinião assim o ditavam, promoveram (promovem?) quadros legislativos impossíveis de praticar, com a consequente perda de competitividade porque o mercado as não remunera e os políticos não assumem a coragem de exigir essas mesmas imposições às importações de Países Terceiros. É certo que temas como o bem-estar animal, a segurança alimentar, a protecção ambiental e as alterações climáticas, a gestão eficiente de recursos, a redução dos antibióticos e a sustentabilidade, são ganhos civilizacionais e preocupações aceites pelos consumidores que tudo querem mas não estão disponíveis para pagar mais, e desconhecem que os produtos importados não têm exactamente as mesmas regras (e custos) dos congéneres europeus. Esta é a primeira grande incoerência de Bruxelas e que tem de ser rapidamente alterada, numa altura em que se incentivam os acordos comercias. Outras contradições prendem-se com interesses e satisfações dos consumidores, assentes na moda, na opinião publicada ou na má-comunicação e os exemplos multiplicam-se seja no leite, na carne, nos ovos, em que apesar das evidências e estudos, estes produtos continuam a ter uma imagem relativamente negativa. A obesidade e a diabetes são, de facto, problemas sérios e os culpados, desde logo, são os alimentos, a gordura, o sal, o açúcar, sem se ter em linha de conta que não existem bons ou maus alimentos, mas dietas e estilos de vida que podem ser profundamente errados.

Porque vivemos de percepções, de opiniões voláteis, temos hoje uma excelente oportunidade de mudar o actual estado de coisas, mostrando como fazemos a alimentação animal, as preocupações que temos com os consumidores, abrindo as portas das empresas, a importância dos produtos animais na saúde humana, os compromissos que assumimos em diferentes áreas, com particular destaque no bem-estar animal, na segurança alimentar, na protecção do ambiente. Mostrar que queremos ser sustentáveis mas que essa sustentabilidade passa pela componente económica, ambiental e social. Que podem confiar e acreditar em nós. Que somos uma Indústria responsável e que na fileira da alimentação animal todos partilhamos os mesmos valores e objetivos.

Numa altura em que importa mais ser proactivo e menos reativo, mais do que informar, nunca foi tão necessário comunicar, trabalhar em conjunto, com transparência e verdade. Afinal, tinham razão os que lançaram há 28 anos a Revista “Alimentação Animal”, tão actual e presente nos seus objectivos. Talvez mais do que nunca!   

Cristina de Sousa

Presidente da IACA

 


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